A morte sem nome sob frio recorde em avenida de bairro nobre de São Paulo

Deitado em posição fetal, protegido apenas por um cobertor fino e alguns papelões. Sem documentos, familiares ou amigos.

Foi desta forma que policiais militares encontraram o corpo de um homem pardo, aparentando ter cerca de 35 anos, no fim da tarde desta terça no cruzamento entre a rua Teodoro Sampaio e a avenida Doutor Arnaldo, área nobre a poucos minutos da avenida Paulista, em São Paulo. O laudo que apontará a causa da morte ainda não ficou pronto, mas a principal linha de investigação é que ele tenha sido mais uma vítima do frio.

Ironicamente, o corpo foi encontrado nos arredores do Hospital das Clínicas, o maior da América Latina.

Cerca de uma hora antes de ser encontrado, o termômetro oficial do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) marcou 10,2°C em São Paulo. Essa foi a segunda menor temperatura registrada durante a tarde na capital paulista nos últimos 13 anos.

Um dia após a morte, o cobertor e os papelões que envolviam o corpo ainda podiam ser vistos na calçada.
Sem proteção

Hélio Henrique dos Santos, que trabalha em uma floricultura em frente à Faculdade de Medicina da USP, onde o corpo foi encontrado, conta ter sido o primeiro a perceber que o morador de rua estava morto.

"Cheguei às 10h e ele estava parado. Achei estranho porque morador de rua normalmente acorda mais cedo e vai embora", diz. "Quando deu umas 17h, ele ainda estava lá, na mesma posição. Fui olhar e o encontrei morto, com sangue seco no nariz."

O comerciante então avisou seguranças da USP, que chamaram a polícia.

Segundo o delegado-assistente do 23º DP (Perdizes), Ricardo Kondo Forti, os policiais militares que atenderam a ocorrência não puderam fazer nada para salvar o homem.

"Ele estava num lugar onde não tinha nenhuma cobertura ou proteção lateral. O vento estava batendo direto nele. Havia papelões ao lado, mas nada que barrasse o frio de forma efetiva", afirmou em entrevista à BBC Brasil.

Forti, que registrou o boletim de ocorrência da morte, afirmou que os policiais não identificaram ninguém próximo ao corpo para contar como ou quando o homem chegou ali. Era como se ele tivesse passado despercebido.

O delegado afirmou que não havia nenhum indício de violência no corpo dele ou outro sinal de que tenha sido atacado.

O padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, diz que vem ajudando diariamente pessoas que sofrem nas ruas com o frio extremo na cidade.

"Nesta noite, ficamos até 2h ajudando quem estava nas ruas. Encontramos diversas pessoas com sinais de hipotermia. Nós colocamos proteção nas extremidades de seus pés, mãos e cabeça para proteger, além de (oferecer) bebida quente", afirmou.

Segundo o padre, que faz esse trabalho voluntário durante a noite, a maior parte das pessoas que morrem é encontrada sozinha. "Quando tem amigo ou família, eles sempre procuram um lugar mais quente ou se esquentam juntos num cantinho", contou Lancellotti.
Números

Em 2016, ao menos seis moradores de rua morreram no período de frio mais intenso, entre junho e julho.

Segundo a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, não há deficit de vagas na rede de acolhimento. Os 85 centros, diz, estão recebendo em média 10,5 mil pessoas por dia, com 800 vagas sobrando.

"Se uma pessoa solicita acolhimento em um equipamento já lotado, ela é encaminhada para outro pela Coordenadoria de Atendimento Permanente e de Emergência (CAPE) em veículos próprios da secretaria", afirmou o órgão por meio de nota.

Apesar da existência dos abrigos, muitos moradores evitam recorrer a eles por causa das regras impostas nos locais, como horários de entrada, de refeições e proibição do consumo de álcool.

Muitos desses locais também vetam a entrada de animais - algumas dessas pessoas adotam cachorros nas ruas e não querem se separar deles. Mas dois espaços recém-inaugurados, os CTAs (Centros Temporários de Atendimento) Brás e Aricanduva, aceitam o encaminhamento de moradores de rua nessa situação.

Paralelamente, a Prefeitura de São Paulo diz que realizará ações emergenciais para distribuição de cobertores, roupas e alimentação. Apenas no primeiro dia, foram entregues mais de mil cobertores durante a madrugada desta quarta-feira, segundo as informações oficiais.

"A prioridade é atender essa população por meio do Plano de Contingência para Situações de Baixas Temperaturas e zelar pela segurança e bem-estar destas pessoas, além de promover o acolhimento durante os meses mais frios do ano nos equipamentos da rede", afirma a gestão do prefeito João Doria (PSDB).
Reforço

Segundo a prefeitura, a atuação dos Serviços Especializados de Abordagem Social (SEAS) será reforçada em todas as regiões da cidade e poderá ter o apoio dos profissionais que atuam nos Centros de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centros Pop), Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas).

Os orientadores do SEAS atuam diariamente, das 8h às 22h, realizando abordagens e encaminhamentos das pessoas que aceitam ir para os serviços da rede de proteção social, como os Centros de Acolhida e Núcleos de Convivência e CTAs.

A população também pode ajudar as pessoas em situação de rua solicitando uma abordagem social por meio da Coordenadoria de Atendimento Permanente e de Emergência (CAPE), que funciona 24 horas por dia, e pode ser acionada pela Central 156.

A prefeitura lamentou a morte do morador de rua e informou que, neste período, "estará em operação o Programa Emergencial de Inverno (PEI), com atuação de equipes das secretarias de Assistência e Desenvolvimento Social, Segurança Urbana, Direitos Humanos e Cidadania, além da Coordenadoria Municipal da Defesa Civil".

BbcBrasil

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